28 11 2012

– Você errou comigo! Demorou demais e seguia sussurrando que era tudo normal, que o ritmo estava certo. Porém, quando eu estava pronto já era tarde. Tudo o que eu tinha era passado, e você bem sabe que do passado não se vive, se tira lições.

Ele disse gesticulando furiosamente quando ouviu uma voz grave como o ruído continuo e uniforme de um trovão onipresente.

– Não pense que podes me julgar. Não errei contigo. Jamais errei em minha longinqua existência. Não erro porque apenas passo. Não há forma ou interpretação que possa recair sobre mim porque eu apenas existo, sem intenção ou ensinamento algum. Sou como uma onda invisível e silenciosa que jamais encontrará a costa, mas que carrega tudo em suas águas. Passo como se não houvesse movimento, mas, ao mesmo tempo, percebe-se em mim que nada é estático.
Essas ideias e aprendizados não sou eu quem trago, afinal. Isso é você, Homem, que me atribui. Que interpreta os fenômenos e efeitos que causam minha existência imemorial.
Aliás, é só você que tenta, com a lógica e os números, dar rótulos ao meu andar. Segundos, minutos, horas, dias, semanas, meses, anos, décadas, séculos, milênios… Isso só existe para o humano, que inutilmente tenta me enlatar em relógios e calendários.
Veja e aprenda com os demais seres vivos, eles não me qualificam, eles me sentem e se comportam baseados nestas coisas mais palpáveis e vivas… percepções que o ritmo natural das coisas nos traz… e quando eles sentem fome, comem. Quando o dia cai, se recolhem. Se sentem desejo, transam e, ao final de seu dia, cansados, dormem… mas nada tem um momento exato para acontecer, os desejos e necessidades nascem e o instinto os segue. Perceba que tudo isso surge pelo mergulho na Vida e não do controle dela. Tudo vem pela sensorialidade do que temos à nossa disposição e não pela busca incessante da racionalização de tudo que existe.
Portanto, criatura, viva e deixe-se viver! E sinta a vida pulsar neste ritmo extraordinário… as coisas, naturalmente, se ajustam… porque sempre foi assim. Acredite em mim, já estou aqui há bastante Tempo.

O homem, então, aquiesceu abaixando a cabeça. Depois seu rosto serenou,  e havia uma nesga de felicidade dentro de si, mesmo que a fisionomia não a revelasse. Ele caminhou de volta para casa sem nenhuma pressa.

Lucas De Nardi





Ela dançava

15 08 2011

Ela, então, passou a mão no meu olhar e o tirou para dançar. Mas eu não me movia, porque meus olhos não viam mais nada. E se fez impossível sair do lugar.
Ela não dançava para aparecer mais que qualquer outra, ela não dançava seduzindo a mim, ela não dançava apenas. Ela dançava sabendo que só ela existia para quem a visse, dançava ciente que o mundo um dia acabaria, mas agora o mundo era ela e era todo seu. Ela dançava e seu corpo não precisava de música porque seus desejos a embalavam. Ela dançava de forma louca… de forma linda… ela dançava… e nada mais se movia em mim, senão a ânsia do seu corpo no meu, numa outra dança…

T. Conthey





Vérotchka, Anton Tchékhov

6 06 2011

Enquanto caminhava, ele pensava que muitas vezes você encontra pessoas na vida e que, infelizmente, desses encontros não fica nada mais do que recordações. Acontece vermos de relance as cegonhas no horizonte, a brisa traz seus gritos triunfais e lamentosos, mas um minuto depois, por mais que você esquadrinhe ansiosamente o azul distante, não verá nem sinal delas, e não ouvirá um som sequer – exatamente assim as pessoas, com seus rostos e falas, passam de relance por nossa vida e se afundam em nosso passado, sem deixar mais do que ínfimos vestígios de lembranças. Vivendo desde a primavera na província de N. e frequentando quase que diariamente a casa dos Kuznetsov, Ivan Aleksêievitch acostumara-se ao velho, à sua filha e aos criados como se fossem sua família, e estudara nos mínimos detalhes toda a casa, a confortável varanda, as curvas das aléias, as silhuetas das árvores contra a cozinha e a casa de banho; porém, assim que ele sair agora pela cancela, tudo isso se tornará uma lembrança e para ele perderá para sempre sua importância real, e dali a um ano ou dois todas essas imagens agradáveis vão ficar embaçadas em sua consciência, no mesmo nível das coisas imaginadas e das fantasias.
“Não existe nada na vida mais caro do que as pessoas!” – pensava comovido Ogniov, enquanto caminhava pela aléia em direção à cancela. “Não existe nada!”





Sobre a noção do tempo

5 06 2011

– Há quanto tempo você está aí?
– Já estou fora do Brasil há 6 meses.
– Nossa, passou muito rápido… mas, por outro lado, se passou muita coisa…
Enquanto ele pensava em como a noção de tempo é ilusória. E que de todas as coisas, a única certeza é de que não há pausa na linha da vida…

Lucas De Nardi





…em movimento

29 03 2011

Ele entrou no táxi sem muito animo. Parecia que a porta era mais pesada do que as forças que seus braços podiam produzir.
– Vamos para onde, patrão? – foi como se a voz do taxista houvesse despertado o passageiro.
Ele levantou a cabeça sobressaltado. Enxergou o motorista pelo retrovisor com um olhar sonâmbulo, a boca abriu-se, mas alguns segundos se passaram antes que algum som fosse emitido.
– Eu não sei… não há mais para onde se ir…
– Como assim, patrão? Então o senhor entrou no táxi porque?
– Não sei, não há mais nada…
O motorista mostrou-se desconfiado, mas ao mesmo tempo curioso com o que poderia estar se passando na vida daquele homem bem vestido.
– Mas, senhor, vamos pensar bem. O senhor chamou meu táxi enquanto eu passava, portanto deve estar querendo ir à algum lugar, não é!?
– Pois é, queria… mas ela não está lá…
– Ela quem, senhor? Lá onde? E quem disse que ela não está?
– Eu mesmo vi, foi hoje. Antes de o dia amanhecer… eu estava na sala… ela me deixou, amigo.
– Mas deve ter pensando melhor e já está de volta. Diga-me onde é que levo o senhor para conferir isso. – o motorista teve que colocar o carro em movimento porque o transito naquela avenida não permitia nenhum carro parado em fila dupla.
– Não, ela carregava suas malas. Ela não olhou para trás, nem atendeu minhas ligações ao longo do dia… ela se foi, você precisa entender… e eu também. Mas agora, não há mais para onde ir… não há mais nada…
– E onde o senhor mora?
– Eu morava, amigo… morava… Agora já não moro mais. Morava com ela, entende?! A moradia era habitada porque ela a habitava.
– Sim, mas e agora?
– Agora ela se foi, você percebe? Acabou tudo.
– Entendo, mas o apartamento ainda existe, você deve ter a chave, pode ir para lá. – ele dava voltas pelo bairro sem se afastar muito do ponto de origem, pois achava que o distinto homem morava pela redondeza.
– Sim, o apartamento está lá, mas ele já não existe… ele se foi quando aquela mulher fechou a porta. Tudo ali existia para ela… inclusive eu…
– Poxa, amigo, não fale assim. Você é um homem trabalhador, deve ter muitas outras coisas na vida. O que você faz? – tentou animá-lo.
– Eu passei os últimos 20 anos de minha vida amando uma mulher… eu me dediquei a isso… eu não fui outra pessoa senão o amante dela. Mesmo na sua ausência, mesmo quando um dos dois viajava, sempre mantive ela dentro de mim. Como uma construção cujo resultado final o arquiteto não vê diariamente, mas sabe existir. E isso é o suficiente para que ela permaneça presente em sua vida. Este era eu… hoje, não sei mais…
Um silêncio se fez naquele pequeno espaço da parte de dentro do carro. As janelas estavam fechadas e o ruído da cidade, abafado, parecia uma trilha sonora tosca e mal executada em um filme em preto e branco.
– Eu quero apenas que você dirija, amigo. Vou lhe pagar o quanto for preciso, mas gostaria que você apenas dirigisse pela cidade. Não há destino certo porque eu mesmo não sei pra onde vou… Mantenha-me em movimento, é tudo que lhe peço. A inércia seria a morte para mim agora.
– Ok, doutor. Pode deixar que lhe mostrarei os pontos mais bonitos da cidade. E os mais imundos também, se quiser.
– Faça como lhe parecer melhor.

T. Conthey





O valor de si mesmo

7 02 2011

– Tudo o que você é como pessoa tem um valor inestimável. Todos os seus pensamentos, todas suas palavras, todas atitudes e mudanças que vocês faz são únicas e incopiáveis. Porém, é imprescindível que você saiba disso, que tenha consciência do quanto és valioso. A partir de então, tudo na vida ganha uma nova dimensão, tudo o que você produzir terá um significado verdadeiro.

Disse um senhor de voz macia e olhar penetrante ao menino que brincava na garoa. Ele então recolheu a bola dos pés do homem e seguiu pela calçada imaginando-se em uma partida com as àrvores.

T. Conthey





Sobre a coerência

27 01 2011

Francisco era um cara coerente. Acordava todos os dias bem cedo, porque gostava da claridade da manhã. Caminhava até o parque, porque detestava a ideia de ser sedentário. Procurava pelos pontos mais arborizados e lá acendia seu primeiro cigarro.

– Porque aqui o ar é mais puro – justificava para si mesmo.

T. Conthey