Status: solteiro

27 01 2011

Esta semana soube que um amigo meu acabou seu relacionamento. Nas poucas vezes que conversamos sobre o desenrolar do seu namoro, ele me pareceu muito feliz com o que estava vivendo e por isso lamentei pelo que aconteceu.
Tomei conhecimento do ocorrido porque ele mudou seu status no Facebook. Porém, o que mais me chateou nisso tudo foi que os seus amigos estavam fazendo comentários sarcásticos sobre essa mudança em sua vida. Me lembrei do quão dolorido foi o término do meu namoro.
Poxa, será que os amigos não tem sensibilidade para perceber que a mudança de status não é uma simples brincadeira? Será que ninguém percebe que por trás das informações, fotos e dados existe um ser humano, que ama e também sofre? Será que todos pensam que tornar-se solteiro é algo a ser festejado?
As redes sociais tem o incrível poder de anular distâncias entre amigos. Porém, lembre-se que as vias são virtuais, mas as pessoas ainda são reais.. E amigos são para coisas muito maiores do que curtir um post.

Lucas De Nardi

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O Coração é um Caçador Solitário, Carson MacCullers

7 09 2010

Passarei o feriado com um livro novo já que no último domingo cumpri uma missão que eu mesmo me determinei.
Em minha vida, dois livros passaram por mim e não os li por completo. Ambos foram indicações de meu grande ídolo da literatura, Nestor Alberti. Quando ele me falou sobre o romance de Carson MacCullers, acrescentou na sua voz rouca é um clássico, cara. Ele adora me dizer isso, e fico louco porque sei que jamais terei tempo para ler todos os livros dos quais ele me fala, e os quais já pode se deliciar. De qualquer forma, como bom discípulo, anotei o nome, O Coração é um Caçador Solitário, em um guardanapo qualquer que se perdeu em um bolso esquecido de alguma calça que um dia foi lavada.
Tempos depois, a Naiana presenteou-me com a última edição do livro. Comecei a lê-lo imediatamente, mas achei o ritmo lento, muitas histórias dentro da trama, iniciei outras leituras e desisti do livro indicado pelo Nestor. A Naiana ainda tentava me consolar, mas não são todos os livros que o meu pai indica que eu gosto, mas aquilo não me tranquilizava. Como pode eu não ter gostado de um livro que foi incluído pela Time magazine no seu 100 Best English-language Novels from 1923 to 2005?
Bom, o livro tanto me olhava da estante, com seu marcador de páginas congelado em algum lugar entre o início e a metade do livro que certo dia me senti na obrigação de tentar de novo. E ainda bem que o fiz, foi uma experiência reveladora.
Trata-se do romance de estreia da autora, lançado em 1940, quando ela tinha apenas 23 anos. O sucesso imediato a colocou no topo das listas dos bestsellers daquele ano. É um romance profundo e tocante, uma leitura transformadora pela abordagem realista.
O história se passa em uma cidade do Sul dos Estados Unidos, durante a década de 30. O livro relata passagens da vida de cinco personagens. Sr. Singer, é o principal deles. Trata-se de um mudo cujos demais percebem como alguém sábio e tolerante. Todos eles desabafam sobre seus ideais com ele, que muitas vezes não os entende, mas apenas aceita suas lamentações.
Em um cenário sujo, pobre e desesperançoso, o Sr Singer aparece como um porto seguro na vida do operário marxista, da menina que sonha em viver da música, do médico negro e do passivo dono do bar New York. Niguém escapa à solidão intrínseca que existe dentro de todo ser humano. Todos vivem suas tragédias diárias e encontram alívio no amigo mudo, mas pouco se importam com a vida e os sentimentos reais do Sr. Singer. Em muitas noites, enquanto lia o livro, tive insônia e um dos motivos que atribuo a isso é que as vidas destes personagens continuavam em mim depois que eu fechava o livro e desligava a luz. Cada um de seus anseios parecia meu também e me preocupava se todos seguiriam naquela vida miserável e sofrida… O livro é um relato chocante que vale a pena ser lido.
Agora vou (re)começar As Cores Proibidas, de Yukio Mishima, e espero que esta segunda chance para a leitura também me renda boas emoções.

Lucas De Nardi





A fuga da timidez

4 05 2010

A timidez é uma condição estranha da alma,
uma categoria e uma dimensão que se abre para a solidão.

Pablo Neruda, Confesso que Vivi

Estive analisando a forma como exponho minhas opiniões, como ministro minhas classes e como ensino os meus alunos e descobri que sou extremamente tímido. Tenho certo pavor de ver as pessoas me olhando e esperando que eu lhes diga algo. Nesse momento valorizei ainda mais a profissão que tenho.
Acontece que, no Método DeRose, os alunos que fazem uma aula não estão olhando para o instrutor, e sim para dentro deles mesmos. Na maior parte das modalidades de ensino em que há um tutor na frente da sala, esse deve ser o grande showman. No meu caso, não é bem assim. Isso ocorre porque o grande espetáculo acontece dentro de cada um que vivencia a aula. O instrutor, portanto, serve apenas como um guia das descobertas que estão por vir. Ele não quer aparecer, mas sim mostrar.
Imagine que você está participando de uma excursão turística: veja-se num ônibus que sacoleja por estradas cercadas de paisagens e monumentos. Em todos os momentos existe um guia na frente do grupo chamando sua atenção para a linda vegetação ao seu redor, informando sobre a importância de cada construção, fazendo com que você valorize todos os detalhes, tornando sua viagem muito mais proveitosa e rica. Ao final do dia, o que estará registrado em sua memória? O caminho em si é muito mais importante do que o guia e é justamente aí que minha timidez se acomoda e me permite ir à frente das classes e dar boas aulas.
Às vezes, as pessoas me felicitam dizendo que dou ótimas aulas, mas percebo que na realidade elas apenas se permitiram olhar para dentro de si. Talvez eu tenha o mérito em tornar o caminho mais agradável, mas as lindas paisagens, cores e sensações que cada um desvela nas aulas, é crédito pessoal do praticante. Todavia, quando alguém sai feliz de uma aula, fico sorridente por saber que mais um ser humano está se conhecendo. E olhar para dentro e descobrir coisas belas, definitivamente, é o primeiro passo para tornar o Mundo um lugar melhor.

Lucas De Nardi