27 05 2011

Tudo o que é recente, já é passado.

Lucas De Nardi





We’re all getting older…

26 05 2011

Os recém nascidos ao saírem da progenitora
Os prematuros trancados nas incubadoras
Os bebês que ainda choram nas madrugadas
E os que já tem um ano e ainda não falam nada

As crianças em seu primeiro dia na escola
As turmas inteiras se divertindo com uma bola
Aqueles que brigam no recreio
E os que pedem para sair mais cedo

Os adolescentes que contam pelos pubianos
Os românticos que dizem “eu te amo”
Aquele que se embriaga pela primeira vez
E os que percebem erupções na tez

As meninas que descobrem sangue na calcinha
O que se satisfaz espiando sua vizinha
Os que querem se divertir e não tem idade
E os que acabaram de entrar na faculdade

O homem que começa seu primeiro emprego
A que dorme com o patrão para sair mais cedo
Aqueles que acabam o mês com a conta vazia
E os que enriquecem em um só dia

Os descuidados que sofrem um infarto
Os que não aguentam ver a mulher no parto
Os que saem de casa às escondidas
E os que não tem muito amor à vida

Os idosos que caminham apoiados em bengalas
Os que já não ouvem quase nada
Os que tomam remédios em horários fixos
E aqueles tão velhos que nem tem mais filhos

Eu, enquanto escrevo estes versos
Você, enquanto lê este texto
Inadialvelmente, mesmo que não estejamos vendo
Todos nós, estamos envelhecendo.

Lucas De Nardi





Invasões Bárbaras

25 05 2011

Em seus últimos instantes de vida, Rémy, reune os amigos e familiares para, com a lucidez que ainda possui, lhes dizer:

“Foi um prazer viver na companhia de vocês, queridos amigos.  É o sorriso de vocês que levo comigo.”

Então, ao final do filme, toca uma linda canção chamada L’amitie, de Jean-Max Rivière, cantada por Françoise Hardy. E os primeiros versos dizem:

Beaucoup de mes amis sont venus des nuages
Avec soleil et pluie comme simples bagages
Ils ont fait la saison des amitiés sincères
La plus belle saison des quatre de la terre





A corrida e Georges Braque

23 05 2011

Hoje participei de uma prova de corrida pela primeira vez na vida. Percebi, durante o percurso, que a competição é um momento solitário e que, por isso mesmo, exige muita concentração. É preciso estar totalmente focado no momento para que não haja erros e a prova seja completada com êxito. No meu caso, consegui permanecer neste estado de consciência e finalizei os 10 quilometros em um tempo satisfatório. Depois de passar todos aqueles minutos sem qualquer dispersão mental, me lembrei de um aforismo de Geoges Braque, pintor que junto de Picasso protagonizou o cubismo. Ele publicou, em 1952 uma série destas frases e observações sob o título de Le jour et la nuit. Cahiers 1917-1952. Um dos seus aforismos, pra mim, define o estado que vivenciei hoje e que é muito bom de ser exercitado também em nossa rotina.

Jamais teremos repouso: o presente é perpétuo.





Milonga de Manuel Flores, Jorge Luis Borges

21 05 2011

Y sin embargo me duele
decirle adiós a la vida,
esa cosa tan de siempre,
tan dulce y tan conocida.





délibáb

21 05 2011

A arte de um escritor ou poeta e de um compositor musical difere, entre outras coisas, pelo fato de que a prosa e a poesia normalmente são lidas em momentos solitários e silenciosos, enquanto a composição musical só terá sentido se for cantada. Assim sendo, considero que o músico leva vantagem ao ter um contato direto com seus admiradores durante a transmissão de sua arte, enquanto os escritores nem sempre tem esta oportunidade.
Porém, no seu espetáculo délibáb, Vitor Ramil traz para o público um pouco destas duas artes ao musicar poemas de João da Cunha Vargas, além de cantar milongas de Jorge Luis Borges. É uma rara oportunidade de ver obras poéticas declamadas como canções. No show, Vitor Ramil funde música e poesia de uma forma tão natural e límpida e com uma intensidade tão autêntica que nada resta aos ouvintes senão permanecer com olhos e ouvidos vidrados em sua verdadeira alquimia sonora.
Lucas De Nardi
PS: vale ressaltar que seu colega de palco, o violonista Carlos Moscardini, é uma atração à parte.





Deixando o Pago, João da Cunha Vargas

21 05 2011

Alcei a perna no pingo
E saí sem rumo certo
Olhei o pampa deserto
E o céu fincado no chão
Troquei as rédeas de mão
Mudei o pala de braço
E vi a lua no espaço
Clareando todo o rincão

E a trotezito no mais
Fui aumentando a distância
Deixar o rancho da infância
Coberto pela neblina
Nunca pensei que minha sina
Fosse andar longe do pago
E trago na boca o amargo
Dum doce beijo de china

Sempre gostei da morena
É a minha cor predileta
Da carreira em cancha reta
Dum truco numa carona
Dum churrasco de mamona
Na sombra do arvoredo
Onde se oculta o segredo
Num teclado de cordeona

Cruzo a última cancela
Do campo pro corredor
E sinto um perfume de flor
Que brotou na primavera.
À noite, linda que era,
Banhada pelo luar
Tive ganas de chorar
Ao ver meu rancho tapera

Como é linda a liberdade
Sobre o lombo do cavalo
E ouvir o canto do galo
Anunciando a madrugada
Dormir na beira da estrada
Num sono largo e sereno
E ver que o mundo é pequeno
E que a vida não vale nada

O pingo tranqueava largo
Na direção de um bolicho
Onde se ouvia o cochicho
De uma cordeona acordada
Era linda a madrugada
A estrela d’alva saía
No rastro das três marias
Na volta grande da estrada

Era um baile, um casamento
Quem sabe algum batizado
Eu não era convidado
Mas tava ali de cruzada
Bolicho em beira de estrada
Sempre tem um índio vago
Cachaça pra tomar um trago
Carpeta pra uma carteada

Falam muito no destino
Até nem sei se acredito
Eu fui criado solito
Mas sempre bem prevenido
Índio do queixo torcido
Que se amansou na experiência
Eu vou voltar pra querência
Lugar onde fui parido