10 08 2012

“O que procurava em todas essas mulheres? Porque elas o atraiam? Não seria o amor físico a eterna repetição do mesmo ato?
De forma nenhuma. Há sempre uma percentagem de inesperado. Ao ver uma mulher vestida, podia de fato imaginar mais ou menos como seria ela nua (nisso sua experiência de médico completava a experiência de amante), mas entre a aproximação da ideia e a precisão da realidade subsistia um pequeno intervalo de inimaginável, e era essa lacuna que não o deixava em paz. Além disso, a busca do inimaginável não termina com a descoberta da nudez, vai além dela: que cara faria ela ao tirar a roupa? O que diria quando fizesse amor? Como soariam seus suspiros? Que rictos se estampariam em seu rosto na hora do orgasmo?”

Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser.

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Solidão

2 08 2012

“Mas ele parecia sozinho, absolutamente sozinho no universo. Um náufrago no meio do Atlântico.”

Herman Melville em Bartleby, o escrituário.





Mulher

22 07 2012

“Só mais tarde compreendeu que a palavra mulher, que ele pronunciava com ênfase especial, não era para ele a designação de um dos dois sexos da espécia humana, mas representava um valor. Nem todas as mulheres eram dignas de serem chamadas de mulher.”

Milan Kundera, A Insustentável Leveza do Ser





Lavoura Arcaica, Raduan Nassar

14 02 2012

…e se acaso distraído eu perguntasse “para onde estamos indo?” – não importava que eu, erguendo os olhos, alcançasse paisagens muito novas, quem sabe menos ásperas, não importava que eu, caminhando, me conduzisse para regiões cada vez mais afastadas, pois haveria de ouvir claramente de meus anseios um juízo rígido, era um cascalho, um osso rigoroso, desprovido de qualquer dúvida: “estamos indo sempre para casa“.





Belos e Malditos, F. Scott Fitzgerald

8 02 2012

“Ao chegar em casa sua imaginação pululara de sonhos fantásticos e espantosos. De repente não havia mais problema na sua cabeça, nenhuma questão eterna a ser resolvida e tornar a ser resolvida. Ele sentira uma emoção que não era nem física nem mental, nem apenas uma mistura dos dois, e o amor pela vida pela vida absorveu-o, por enquanto, com a exclusão de tudo mais. Ele se dava por satisfeito de deixar que essa experiência permanecesse isolada e singular”

 





Você tem de cuidar de si mesmo

12 03 2011

Você tem de cuidar de si mesmo. Se alguma coisa se partiu dentro de você, tem que colar as partes com as próprias mãos.

Paul Auster, em Invisível





Invisível, Paul Auster

20 01 2011

Este foi o último romance que li. Ganhei de aniversário da Jana, que me avisou “Paul Auster é muito bom. Você começa a ler e não para mais”. Confesso que li as dez primeiras páginas umas cinco vezes, não por falta de interesse, mas porque tinha outras leituras para as quais estava dando mais prioridade.
No final do ano, porém, devorei o livro em 5 dias. Na última noite eu já tinha lido cerca de 30 páginas e resolvi dormir. A história, no entanto, não saia de minha cabeça e senti-me “obrigado” a ligar a luz e desfrutar das últimas 80 páginas. Sem isso eu não dormiria direito.
Durante a leitura, gosto de sublinhar os trechos dos livros que acho bem escritos, que descrevem cenas, paisagens ou situações bonitas ou que me transmitem alguma mensagem interessante.
Segue abaixo, as partes do livro que sublinhei e que eventualmente volto a ler. Apesar de serem momentos que não transmitem uma ideia clara do conteúdo do livro, por estarem fora do contexto, e nem sempre serem a voz do mesmo narrador, são relatos lindos por si só. E por isso gostaria de compartilhá-los.

Lucas De Nardi

Pág. 49
…e durante aquelas cinco noites assumimos a missão de criar um mundo só nosso, dormindo naquele quarto pequeno, com uma só janela, protegida por barras, e com uma cama estreita, que passou a ser conhecida pelo nome de cama do amor, embora amor no fim das contas não tivesse nada a ver com o que aconteceu conosco naqueles cinco dias. Não ficamos caídos um pelo outro, como se costuma dizer, antes caímos um dentro do outro, e, no espaço profundamente íntimo que habitamos naquele período breve, muito breve, nossa única preocupação era o prazer.

Pág. 50
Ela simplesmente me tomava pelo que eu representava em sua própria mente – sua escolha do momento, o ser físico que ela desejava -, e, toda vez que eu olhava para ela, sentia que Margot estava me sorvendo, como se saber que eu estava ao alcance dos seus braços fosse o bastante para satisfazê-la.

Pág. 50
Boca de lábios fartos, barriga lisa com umbigo ligeiramente saliente, mãos ternas, um ninho de pelos púbicos ásperos, nádegas rijas e a pele extremamente branca, com um tato mais liso que o de qualquer outra pele que eu já havia tocado. Os pormenores de um corpo, os detalhes irrelevantes, preciosos.

Pág. 51
…mas Margot estava tão à vontade, tão senhora das artes das pequenas mordidas, lambidas e beijos, tão livre de hesitações para me explorar com suas mãos e com sua língua, para atacar, desfalecer, se entregar sem reserva nem vacilação, que em pouco tempo eu me soltei. Se dá uma sensação boa, é bom, disse Margot a certa altura, e foi esse o presente que me deu no decurso daquelas cinco noites. Ensinou-me a não ter mais medo de mim mesmo.

Pág. 108
…e, quando a língua dela entrou ligeiro em sua boca, você entendeu que não existia nada melhor no mundo do que ser beijado da maneira como ela estava beijando você, que aquilo era, de forma indiscutível, a mais importante justificativa para estar vivo.

Pág. 108
…e pela primeira vez na vida você disse consigo: Eu estou tocando nos peitos nus de uma garota.

Pág. 110
…você repara que os braços dela estão bronzeados, que, apesar do emprego num escritório que a mantém longe do ar livre durante boa parte do dia, ela andou pegando sol o bastante para sua pele adquirir um lindo tom de gengibre…

Pág. 122
Você tem de cuidar de si mesmo. Se alguma coisa se partiu dentro de você, tem que colar as partes com as próprias mãos.

Pág. 134
Intenso. Essa é a palavra que usa para definir a si mesmo agora. Você é intenso. Seus sentimentos são intensos. Sua vida tornou-se cada vez mais intensa.

Pág. 158
Quem sabe quais são os desejos secretos de uma pessoa? A menos que a pessoa aja conforme seus desejos ou fale sobre os seus desejos, a gente não pode ter nenhuma pista.

Pág. 163
Ele se pergunta se as palavras não são um elemento essencial do sexo, se falar não é afinal um modo mais sutil de tocar, e se as imagens que dançam em nossas cabeças não são tão importantes quanto os corpos que seguramos em nossos braços.

Pág. 225
e de repente me ocorreu que eu não tinha nenhum desejo de encontrá-la outra vez. Isso só poderia gerar frustação, e eu não queria que minhas nebulosas lembranças do passado fossem pelos ares por causa dos fatos brutos do presente.

Pág. 241
…o que queremos e o que obtemos raramente são a mesma coisa.