O localismo e Patanjali

19 02 2017

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Todo ano, entre os meses de novembro e fevereiro, hordas de surfistas migram para a costa norte de Oahu, no Hawaii. Nos demais meses, a vida é tranquila nesta região. Há pouca ondas e quase ninguém faz uma surftrip para este destino nesta época.

Obviamente, os surfistas locais não ficam muito felizes quando o circo do surf mundial se muda para o seu quintal. Porém, isso já é uma tradição mais do que estabelecida e dificilmente vai mudar.

Entre os havaianos, pode-se perceber todos os tipos de reações ao crowd, desde aqueles que dão bom dia até os que entram no mar com cara de poucos amigos.

Nestes 4 meses de Hawaii, encontrei várias vezes com um local que faz questão que você perceba que não é bem-vindo. Quando o via dentro da água, minha vontade era de tornar-me invisível. Preferia que ele não notasse minha presença do que ter que receber seu olhar de desaprovação. Ele nunca me dirigia a palavra, mas é como se eu pudesse ouvir seu pensamento dizendo “what are you f*#!ing doing here?”

Aprendi a lidar com sua atitude, procurando julgá-la o menos possível. Sempre que o encontrava, mantinha-me respeitoso e calado. Jamais remei em uma onda sua, mesmo quando estava na preferência. Jamais expressei descontentamento com relação à sua forma de impor o localismo. Mesmo assim, ele estava com a cara fechada em todas as vezes que cruzei com ele. Absolutamente todas, sem exceção. Quer dizer, não exatamente todas.

Na semana passada, um swell grande chegou às ilhas havaianas. Junto dele o pior pesadelo dos surfistas, o kona wind. Um vento que deixa todas as ondas do lado norte das ilhas em péssimas condições.

Por causa disso, os surfistas buscam lugares alternativos para surfar. No maior dia do swell, uma onda que funciona poucas vezes durante a temporada estava com condições clássicas. Vento, direção e tamanho do swell eram ideais.
Cheguei lá enquanto havia pouca gente na água e surfei boas ondas no início da sessão. Porém, no Hawaii nenhuma onda fica sem crowd por muito tempo. Logo em seguida já havia bastante gente na água. Eu estava posicionado mais próximo do inside, na parte do reef em que a onda fazia um double-up e formava o tubo na sessão final da onda. Ali conseguia pegar ondas sem ter que batalhar muito com o resto dos surfistas.

Não fiquei muito surpreso quando vi o tal havaiano chegar no pico. Talvez por ele não estar nas ondas em que surfa com mais frequência, talvez porque estava num dia bom ou talvez por alguma conjunção dos astros, ele me olhou e acenou a cabeça. Fiquei surpreso.

Seu posicionamento era excelente, e em pouco tempo ele pegou várias ondas. Toda vez que ele voltava, remava um pouco mais para dentro de onde eu estava, praticamente ignorando o fato de que eu esperava minha vez.

Num certo momento, ele havia acabado de surfar uma onda que me pareceu muito boa e entrou outra logo atrás. Ela veio direto na sessão do inside e remei forte nela. Fiz o drop desacelerando ao máximo minha prancha para ficar o maior tempo possível dentro do tubo. Foi uma onda linda, com um tubo largo e perfeito. Sai direto no canal, onde ele se encontrava sentado na prancha.
“Você já esteve no Tahiti?”, perguntou. Continuando antes que eu respondesse “Essa onda foi igual a um lugar onde já surfei lá. Um tubo perfeito e a onda acaba.” Sorri e disse que havia estado lá, mas não conhecia a onda mencionada. Ele elogiou meu tubo e disse que estava descansado e esperando um pouco porque não queria parecer “greedy”. Agradeci sorrindo e voltei a remar em direção do line-up.

Quando estava chegando no lugar onde havia me posicionado durante toda session, entrou uma onda com bastante volume, que não quebrou no outside e veio acumulando água e força enquanto se aproximava do inside. Eu estava olhando aquilo empolgadíssimo porque havia esperado por uma onda daquelas desde que entrara no mar. Vi algumas pessoas remando sem muito sucesso e comecei a me posicionar, caso ninguém fosse.
Foi quando eu ouvi meu “amigo” havaiano gritando “Go, brother. Go!”
Quando um local grita para que outro surfista vá numa onda, todo mundo para de remar. É como se fosse uma norma tácita, todos já sabem que a onda é da pessoa que foi estimulada a ir. E por uma sorte do destino, este alguém era eu.

Estava super atrasado, praticamente atrás do lip. Desci tentando gerar o máximo de velocidade possível. Assim que a borda da minha prancha ajustou-se na linha da onda e me projetou para frente, eu já estava dentro do tubo. Passei toda extensão da onda dentro dele. O tubo corria rápido e eu fazia pequenos ajustes para continuar dentro dele sem ser derrubado pelo foamball, a bola de espuma que se forma dentro da onda. Sai junto com o spray da onda e ao som de algumas pessoas que celebraram o tubo comigo. Havia um enorme sorriso no meu rosto e eu comemorava muito.
“Don’t be greedy”, pensei. Apontei o bico da prancha para areia e sai da água.

Estava extasiado e caminhei até meu carro rindo. Havia sido uma onda especial, por vários motivos.

Quando estava saindo do estacionamento, vi o havaiano chegando em seu carro. Abri a janela e agradeci por ele haver me incentivado a ir na onda. Ele então perguntou como tinha sido. “It was the best barrel of my season.” eu disse. E então aconteceu algo muito improvável. Ele sorriu. E não o fez por educação. Não foi apenas esticar os lábios e acenar a cabeça. Ele, sinceramente, abriu um enorme sorriso. Pude ver em sua fisionomia que ele estava realmente feliz pela minha onda. Ele fez um shaka e se despediu. Enquanto dirigia, assimilando toda aquela experiência, foi que lembrei de Patanjali.

Patanjali, cuja biografia é incerta até hoje, foi o autor do Yoga Sutra. Sua obra é o tratado que, pela primeira vez na história, expõe o sistema do yoga. Na sua proposta, o caminho para o autoconhecimento divide-se em oito partes. A primeira parte dessa caminhada em direção a si mesmo é o Yama. Trata-se da maneira como o praticante deve agir para se relacionar melhor com as outras pessoas, animais, vegetais e todo universo à sua volta. Ou seja, como o yogi deve lidar com o mundo objetivo, aquele que está fora dele.

Os Yamas são cinco comportamentos a serem observados. E o primeiro deles é justamente o ahimsa, a não-agressão. No sutra 35 do segundo capítulo, Patanjali explica:

 

“No estabelecimento da não-agressão (ahimsa), a inimizade desaparece das proximidades.”

 

Foi como se uma luz brilhasse dentro da minha mente. Era justamente isso que eu acabara de vivenciar! Claro que demorou algum tempo até que a inimizade desaparecesse na atitude daquele havaiano, mas de fato ocorreu. E foi interessante perceber como o texto é preciso ao mencionar que o efeito ocorre nas proximidades de quem aplica o ahimsa. Afinal, é no universo próximo ao yogi que seu comportamento vai produzir resultado.

Percebi que um ensinamento ancestral, se realmente colocado em prática, ainda gera os mesmos frutos nos dias atuais. Sua aplicação e seus efeitos são, portanto, atemporais.

O yoga provava para mim, mais uma vez, que ele não se restringe ao momento da prática. Vivenciar o yoga apenas no momento de uma aula, não é experimentá-lo em sua plenitude. Yoga é uma forma de viver. Não se trata apenas de fazer uma posição corporal ou um respiratório. Ele deve estar nas escolhas da vida. Ele é prático porque se aplica a todo momento, seja numa situação profissional ou numa viagem de surf.

Ao fim do dia, entendi que Patanjali, há cerca de 3 mil anos, já ensinava sobre como lidar com o localismo.

Lucas De Nardi

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Uma tarde

1 02 2017

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Uma tarde à toa ao som de Caetano vale mais que muito livro de filosofia barata.