A trilha

8 09 2019

Enquanto caminha
cada um cria
a trilha
de suas próprias decisões.

Lucas De Nardi

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A visita do que ficou pra trás

2 09 2019

Perdi parte da minha vida nas coisas que ficaram pra trás. Ganhei caminhos que se abriam como as luzes do sol ganhando o dia. Dificilmente olhava para o que se foi. Nem mesmo a memória era capaz de me levar de volta. No entanto, às vezes, sem nenhuma lógica, partes do meu passado surgiam em minha mente. Não como imagens, mas como sensações. Eu sentia a falta de pequenas experiências que já havia vivido, mas que agora me faltavam. Tal como estar com sede e conhecer o gosto da água na boca antes de prová-la.
Sentia falta de pequenos confortos de casa, como ter uma cama macia e um quarto escuro. A privacidade de um ambiente silencioso.
Sentia falta de caminhar por ruas familiares, lugares onde acontecimentos tinham marcado minha história.
Sentia falta da luz filtrada pelas árvores dos parques em dias frios. De perder tempo atirado na grama. Olhando para o céu e as coisas ao redor.
Sentia falta de encerrar um dia de trabalho, voltar para casa sem pressa. Estar acompanhado de alguém para ir ao cinema.
Sentia falta de dirigir por estradas que me levavam para lugares onde me sentia em casa.
Mas principalmente, de fechar os olhos e não pensar.
Todas as decisões cobrarão seu preço. Todos os acontecimentos estão carregados apenas daquilo que eles são. Todas as percepções do que vivo estão dentro de mim e não do lado de fora.
Portanto, tudo que se passa é neutro. O peso das palavras que escrevo aqui podem ter sua dose de melancolia ou extremo vigor. Mas quem sente isso são os que leem. A beleza da vida segue nos olhos de quem a experimenta.
Nas horas que as coisas que fui criam estas lacunas na minha rotina do que agora sou, apenas as observo. Como alguém que atentamente vê o sol se pôr, absorvo tudo o que posso destes momentos. E sorrio porque sei que para serem lindas as memórias basta apenas a minha escolha.

Lucas De Nardi





Qual vida vale a pena ser vivida?

11 08 2019

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Não existe escapatória. Em algum momento da vidas todos nós, seja por breves minutos ou por longas décadas, fomos absorvidos por alguma ideia.
De forma particular, cada um dedica uma enorme parte de sua atenção aquilo que o atraiu. O quanto permitimos que isso se torne parte de nossa vida irá determinar, em certo aspecto, o rumo de nosso caminho.

Alguns se sacrificaram pela arte. Outros foram absorvidos pela capacidade curativa da medicina. Existem também aqueles se deixaram levar por alguma paixão que parece não ter relação nenhuma com a lógica. Particularmente, me sinto parte deste último grupo.

Desde que me conheço por surfista, fui fascinado pela forma curva de uma onda tubular. Não há nenhuma imagem, nenhum objeto, nenhum movimento que me pareça tão lindo quanto o das águas curvando-se para gerar um tubo. Me fascina profundamente a hidrodinâmica deste tipo de onda, que puxa água da superfície onde irá quebrar, para em seguida se projetar sobre si sem cair sobre exatamente sobre sua face, mas lançando-se para sua base. Criando uma forma cônica onde se condesam som, luz, água e energia.

Na maior parte dos objetos de arte a fruição se dá pelo simples olhar e pelas reflexões que a obra produz. Toda apreciação encerra-se no ato de admirar pelas pupilas e satisfazer-se pelas ferramentas da mente. No entanto, as ondas tubulares transcendem essa qualidade. Isso porque o ato de apreciá-las não é um fim, mas apenas uma das formas de saciar-se delas. Trata-se apenas de uma maneira de conhecer o objeto de uma futura experimentação.

De fato, ao se concentrar profundamente sobre a imagem de um tubo consigo sentir-me nele. Experimento com as faculdades da imaginação e da memória a textura da água, as cores que mudam constantemente e o peso daquela imensa formação líquida girando sobre mim.

Quando surfada objetivamente é como se o admirador de um quadro pudesse penetrar nas tintas e viver um pouco da imagem criada pelo artista. O surfista é um privilegiado que pode ser mais que um mero observador, ele também experimenta ativamente o objeto de sua apreciação.

Uma das sensações mais peculiares de um tubo é justamente o fato de estar cercado de água, mas não estar dentro dela. Estar envolvido por algo líquido, mas ainda mergulhado no ar. Encontrar dentro de um turbilhão veloz e agressivo um espaço de contemplação e paz.

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Muito já fiz para aperfeiçoar minha capacidade de entubar. Já deixei muitas coisas para trás, já abri mão de pessoas e oportunidades. Já dediquei tempo e dinheiro para conhecer verdadeiramente a sensação de entubar.

Mas todo este esforço torna-se pequeno para a satisfação genuína que esta experiência me traz. É como se tudo o que houve antes fizesse sentido quando a água se entorta e me envolve. Tudo parece leve, tudo parece lento, tudo parece simples.

Até mesmo o tempo perde o ritmo pois a mente não experimenta nenhuma outra coisa senão o agora. E assim a vida se prolonga, como uma massa que podemos esticar. E como seria bela a vida se cada instante fosse vivido com essa intensidade. Como seria longa a vida se cada segundo se fizesse tão demorado quanto a eternidade.

E para se viver esta vida, é preciso abrir mão de oportunidades que parecem mais racionais, é preciso gastar um dinheiro que às vezes não temos, é preciso deixar pessoas e lugares para trás.
As ondulações que se formam e viajam milhares de quilometros irão morrer. As ondas, assim como a vida, não esperam, elas passam. Sua energia se dissipa, sua viagem acaba.

E é justamente aí que reside a beleza desta busca. Entubar é estar envolvido por uma energia que vai morrer ao final do tubo. É tornar-se parte de uma expressão da natureza que, como um DNA, jamais se repetirá.

Portanto, mesmo que aos olhos de alguém distante do surf essa busca por swells, ondas e tubos pareça apenas uma paixão tola que consome tempo e energia. É importante que se saiba que as coisas mais valiosas da vida são uma escolha, não uma regra. Não existe fórmula exata para a vida que vale a pena ser vivida.

Para uma vida feliz é essencial que cada um respeite suas paixões, que dedique-se com esmero ao seu objeto de fixação e tire disso um prazer que é apenas seu.

Se me fosse dada a chance de aconselhar alguém, eu lhe diria: viva suas paixões. Os frutos dessa entrega são absolutamente seus, para o bem e para o mal. Mergulhe nas coisas que lhe tocam verdadeiramente. Ninguém poderá determinar quais são elas além de você mesmo. Além disso, as experiências que essa vida lhe trouxer são as únicas coisas que, até o final de sua vida, serão verdadeiramente suas.

Portanto, ouça o seu coração. Assuma para si aquilo que mais ama. E busque oportunidades para que esta paixão se faça presente e que farão bem à pessoa mais importante da sua vida: você.

 

Lucas De Nardi





Sobre partidas

7 06 2019

o trem fechou a porta. ela não olhou para trás. moveu-se dentro do vagão enquanto caminhei para a escadaria. antes de descer, arrisquei um último olhar. pude vê-la novamente. assim como o trem, ela se afastava. não olhou para fora. talvez procurasse qualquer coisa que não fossem meu olhos.

desci cabisbaixo. ela estava certa. assim que a porta se fechou e o vagão pôs-se em movimento, nossos mundos se desataram. quase como se jamais houvessem existido. ela estava certa. não havia nada que sustentasse o frágil nó que nos enlaçou por um breve momento.

houveram apenas aqueles dias que correram como rio. muitas conversas, muitos passos entre o frio da noite e a luminosidade carinhosa dos dias do inverno. as mãos procurando uma à outra. o sonho de um amor maior.

houveram noites de amor. o corpo pequeno de menina que se sobrepunha à minha pele antiga. fazendo-me desejar mais uma chance de juventude. houvera a perfeição do seu gemido e a profundidade de beijos que pareciam não querer se extinguir.

houveram manhãs que pareceram meses. quase acordados amávamo-nos até que o próximo sonho surgia. ali a distância entres os corpos quase não existia. era como se cobrir com o corpo de quem se ama. mesmo que seja um amor breve como um a partida de um trem, que desaparece ao entrar no próximo túnel.

agora minha companhia era o vazio de uma estação solitária. o silêncio soberano que amplos espaços podem ter.

caminhando para casa, via mais cores pois meus olhos tinham o filtro das coisas belas. ela partira, mas nem por isso se foi de mim.

ela estava certa em não olhar para trás. ela estava certa pela animação ao partir. entre nós não havia nada visível. entre nós não havia nada palpável. nada onde pudéssemos nos agarrar. nada que nos desse sustentação. ela estava certa em voltar para a vida que as pessoas vivem. longe da minha vida, que nem eu sei onde vai dar.

houvera o amor no espaço que agora o vazio ocupava. houvera um preenchimento que se desvaneceu. houveram palavras que agora voltavam ao silêncio. e houveram momentos que agora são para sempre lembranças.

Amoroso





Devaneios de hotel

4 06 2019

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As horas morrem lentas enquanto pensamentos da vida caem sobre mim. Mesmo que eu saiba que não adianta fazer cálculos sobre contas prontas, deixo que minha cabeça dê voltas sobre o que já aconteceu. Estou deitado na cama de um hotel qualquer. Em algum canto da cidade de Singapura o tempo parece congelado.

Reflito sobre o que se foi e não pretendo reencontrar. Minha vida após muito tempo sob o mesmo prisma tornara-se fácil, rítmica, ajustada. Havia uma rotina. Havia pouca novidade. Havia uma repetição tão precisa quanto os dias da semana. Os olhos acostumados com as mesmas cores. Os mesmo sons em todas palavras.

Já sabia com quem falar quando as coisas não iam bem. Já sabia por quem sofrer por amor. Já sabia em qual rua passar quando a chuva virava tempestade. Nada parecia errado. Bastava, para isso, que se seguisse pelo mesmo e antigo caminho. Como navegar por águas conhecidas sob ventos alísios.

Então a vida mudou. Uma rajada de novidade me arrastou para dentro da incerteza. Nada seria perto do que fora antes. Não haveria mais rotina. Sequer haveria terra firme.

Muitas verdades se afogaram em alto mar. Partes do que fui morreu nas travessias para que novos pedaços do que sou nascessem em mim. Os olhos se regozijavam nas manhãs vividas sob cores inesperadas. Havia novos sons. Havia o balanço constante do mar, a dança que sempre amei.

Amigos ficaram em terra, distantes demais para serem alcançados. Amigos fizeram esforços, sinais de fumaça, e estiveram presentes. Amizades nasceram em ilhas e ondas, não pelo isolamento, mas pela cumplicidade das paixões pelo mar. A família sempre esteve no peito.

Nasceram novas memórias. Nasceram outras habilidades. Novas palavras surgiam em minha boca. A rotina falava outra língua.

Novas conclusões, de outro tipo de realidade, agora me abraçavam:
a vida busca a calma da meditação profunda;
o corpo não cansa de mergulhar em desafios;
o mar só conhece o movimento;
o céu jamais se fecha, é apenas espaço aberto;
as noites quentes demoram mais para cobrir as horas;
o sol é o anúncio de que tudo é apenas caminho;
e por mais fortes que forem as certezas, como rochas deixadas no tempo, elas também podem lentamente se desintegrar.

Lucas De Nardi

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The loneliness hangs in the air

8 02 2019

I’m going down town where there’s people
The loneliness hangs in the air.
With no one there real waiting for me,
No smile, no flower nowhere.





Largos são os caminhos

8 02 2019

Largos são os caminhos
todos os dias pavimentados
com a luz do sol que nasce.

Inúmeras são as chances
a cada passo formadas
enquanto a névoa assenta.

Indecifrável beleza da vida
quando os dias são únicos
e a experiência é real.