O adeus sem despedida

15 04 2018

 

 

Recentemente passei por uma das maiores mudanças da minha vida. Por mais de 16 anos dediquei-me integralmente à minha escola de yoga. O yoga entrou em minha vida quando eu era muito jovem, por influência de uma paixão mais antiga: o surf. Na época, queria ser surfista profissional e vi nesta prática uma forma de ganhar mais consciência corporal, controle emocional e foco da mente. Tudo isso foi alcançado com tanta eficácia que o yoga tomou o lugar do surf. E virou profissão.


O surf, no entanto, nunca foi esquecido, manteve-se sempre ali, subjacente. Espreitando uma oportunidade. Atento à qualquer brecha para ganhar mais espaço em minha vida.


Há cerca de 4 anos, o surf finalmente teve essa oportunidade. Na época, tomei a decisão de que passaria alguns meses no Hawaii. Na temporada de 16/17, o projeto se concretizou. Guardei dinheiro, aluguei um studio, comprei um carro e lá estava eu, de novembro a março, testemunhando tudo que acontecia na 7 miles miracle. E surfando o máximo que aguentava.


Depois de 5 meses no Hawaii, voltar para Porto Alegre foi difícil. No entanto, agora trazia a certeza de que não iria ficar ali por muito mais tempo. No meio do ano passado, tornei-me sócio do Sibon Praya, um barco que faz surftrips pelas ilhas de mentawai. Um business arriscado e altamente complexo. Onde muitos enxergariam empecilhos, eu via uma oportunidade para a mudança que tanto almejava: morar na praia, surfar muito e trabalhar com o esporte que tanto amo. E ainda correndo o risco de continuar dando aulas de yoga.

Tudo isso nos traz de volta ao início do texto: em março deste ano eu oficialmente deixei de ser sócio da escola que fundei. E uma das maiores lições deste processo veio justamente na ponta final do desligamento: a despedida.

 

Entrar na casa onde funciona a escola, que não por acaso se chama Casa Rio Branco, para um adeus definitivo foi difícil. Olhava para cada canto e sentia uma ponta de tristeza em pensar que não faria mais parte daquele lugar tão especial, construído com tanto amor e zelo por anos a fio. Olhar nos olhos de cada professor, alguns deles com quem trabalhei desde a abertura da escola, e dizer adeus não foi uma tarefa fácil. Ministrar a última aula, agradecer aos alunos pelo apoio. Escrever um texto de despedida. Tudo foi sentido com profundidade, mas com o entendimento de que era parte do processo. Enquanto me afastava, enxergava tudo com a urgência da última vez. A rotina pode ser uma grande facilitadora de nossas vidas, no entanto traz consigo o ônus de ofuscar aos poucos o valor do que está à nossa volta. O colorido ganha tons acinzentados, torna-se comum. O encantamento do início torna-se trivial, como atravessar a rua. No entanto, se você imaginar que será privado de tudo que é corriqueiro em sua vida, o valor das coisas lhe saltará aos olhos.


Enquanto ia embora, eu experimentei exatamente isso. Me despedia dos professores e enxergava, com a mesma intensidade dos seus abraços, as virtudes de cada um. Olhava-os nos olhos e sentia claramente a amizade e o carinho verdadeiros que o convívio diário pode soterrar. Caminhava pela casa e cada canto brilhava pois sabia que aquele ambiente seria raro em minha nova vida.


E ao viver tudo isso, eu compreendi mais um valor da meditação.


O cerne do yoga é a meditação. Todo o entorno, as outras técnicas, são apenas ferramentas que criam o ambiente interno adequado à meditação. Ela, por sua vez, visa mostrar ao praticante aquilo que ele realmente é. Ou seja, aquilo que sobra depois que você se afasta de tudo o que imagina ser. Depois que desmontam-se todos os papéis e retiram-se todas as máscaras. Não que papéis e máscaras sejam inúteis em nossas vidas. Nós objetivamente precisamos deles, mas é importante saber que não somos aquilo. Basicamente, a meditação é despir-se de ilusões que vamos colecionando ao longo de nossa história.


O processo da meditação cria, inevitavelmente, distanciamento. Ao se afastar do que você percebe através dos sentidos e do que gera pelo mecanismo mental, você experimenta aquilo que você é, em oposição ao que pensava ser. Ganha discernimento entre o que existe em você a partir de influências externas e aquilo que é verdadeiro e imutável em si. Desenvolve-se a capacidade de valorizar o que é certo para o seu propósito e escolher conscientemente o caminho a ser seguido para concretizar a sua vocação mais íntima.


A meditação, por esta ótica, nos mostra o que temos de mais importante em nossas vidas, mas sem que precisemos nos despedir delas para reconhecer o seu valor. Dando às pessoas, situações e oportunidades o real apreço que elas merecem. Se você, então, mantém a disciplina proposta pelo yoga, as coisas importantes não se tornam comuns, porque diariamente o valor de tudo é atualizado pelo próprio exercício da meditação. Ou, sendo mais objetivo, pelo distanciamento que ela produz.

Portanto, se você olha para sua vida e não gosta do que vê, talvez seja necessária uma grande mudança. No entanto, se sua vida caminha para a realização das coisas que você almejou e mesmo assim não se sente realizado, talvez você esteja tão próximo de tudo que já não consegue enxergar claramente. Talvez, é hora de dizer adeus, mas sem se despedir. É hora de se afastar, sem ir embora. Talvez, em sua vida, seja hora de meditação.

Lucas De Nardi

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Obrigado, Nai, por tantos anos de carinho e pela construção de algo tão lindo.

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Sonhou

9 02 2018

Ele passou a acreditar
que o amor viria pelo acaso.

Quando, na verdade,
ele nasce com o tempo.





Preso à alguém cantando

30 01 2018

Há três dias ouço quase que constantemente a música de Zeca que Naiana me enviou. Sua voz aguda acompanhada pelo piano, me lembra muito a de Nicinha, acompanhada pelo violão, em Alguém Cantando, no álbum Bicho do irmão Caetano.
Em ambas canções há uma pureza despretensiosa no canto. Um timbre preciso e uma letra preciosa.
A letra de Zeca, no entanto, expressa uma verdade inegável e que talvez seja o que há dias me prende à esse alguém cantando:

“Todo homem precisa de uma mãe”





Sobre ser feliz 

13 11 2017

“Quem tem menos medo de sofrer, tem maiores possibilidades de ser feliz.”

Valter Hugo Mãe, em O filho de mil homens.





A fruição da vida

2 11 2017

Quando se puder estar no momento sem memória ou imaginação, então se experimenta a vida. Todo resto são divagações.

Lucas De Nardi





21 de junho

22 06 2017

O inverno está aqui. Ele não escolhe data exata para chegar, apenas esfria os dias e torna as noites mais espessas.
A cidade, agora, é mais silenciosa e nesta época a luz caminha mais lenta pelo chão. As sombras são quase densas.
Há mais roupa, mais comida e mais conversa dentro de casa. A vida do lado de fora é paisagem.
Os pássaros cantam menos. Às vezes o tempo, como o vento, passa cortante.
A alegria se faz em coisas menores: uma meia, uma xícara quente, uns minutos a mais na cama.
É inverno. O mundo se faz diferente, mas segue sendo ele mesmo.

Lucas De Nardi





Atrás de uma onda.

8 05 2017

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Durante a minha segunda temporada no Hawaii, criei um aforismo para me ajudar nos momentos em que alguma série gigante me pegava desprevenido ou para amenizar minha frustração com a crowd intensa que é parte inseparável do surf nas ilhas.
A frase que passei a pronunciar mentalmente em várias situações era simples e, de certa forma, redundante: atrás de uma onda, sempre vem uma onda.

Pois é, parece lógica demais, até meio estúpida, mas há uma reflexão a se fazer sobre ela. Uma das coisas que eu passei a perceber quando o mar estava grande e uma onda enorme surgia no horizonte parecendo que ia quebrar na frente de todo mundo, dando-nos, no mínimo, uma bela chacoalhada e algum tempo debaixo d’água, era que todos os surfistas remavam desesperadamente para passar pela onda antes de serem pegos por ela. No entanto, assim que venciam essa etapa, evitando o caldo, a grande maioria relaxava. Acontece que uma onda grande nunca anda sozinha, e não foi só uma vez que presenciei a onda seguinte vindo ainda maior ou com uma formação diferente e pegando uma boa parte do crowd desprevenido.
Então eu pensava, “atrás de uma onda, sempre vem uma onda.” A frase em minha mente me lembrava que eu deveria manter minha atenção e meu esforço até que a série toda passasse, jamais relaxando antes do tempo.

Quando acontecia de eu realmente ser pego debaixo do pico, na zona de impacto em que a onda quebra. Já não adiantava remar para fora, eu já estava no lugar errado. Então grandes volumes de água explodiam no reef e me engoliam. Antes de ser atropelado pela espuma, lá vinha a lembrança de novo “atrás de uma onda, sempre vem uma onda.” Por mais difícil que fosse a situação, por mais tempo que eu ficasse embaixo d’água, eu não poderia gastar toda minha energia e fôlego na primeira onda. Tinha que relaxar e economizar o máximo de oxigênio e resistência porque definitivamente, eu teria que tomar algumas outras ondas na cabeça.

Também haviam momentos em que as coisas estavam dando super certos, eu estava sentado no line up, uma onda aparecia no horizonte e parecia se deslocar perfeitamente na minha direção. Eu remava, me posicionava da melhor forma possível, mas como o crowd lá é muito intenso e é preciso respeitar os locais, acontecia frequentemente de alguém estar mais bem posicionado do que eu, me dar a volta remando ou simplesmente ser local. Então, esse surfista pegava com a onda. Imediatamente um desânimo assaltava minha mente e a frase vinha me lembrar que “atrás de uma onda, sempre vem uma onda.” E eu aproveitava o esforço que já havia colocado em prática, o posicionamento no line up e pegava a onda seguinte. Era quase como se a onda anterior tivesse servido apenas para me colocar no lugar certo para a seguinte. No entanto, era preciso a atitude mental correta para que a tentativa frustrada me fizesse perder a energia aplicada na tentativa inicial.

Posteriormente, passei a levar este lema para meu cotidiano. Afinal, como sabiamente escreveu Vinícius de Moraes, “A vida vem em ondas, como o mar”. Portanto, nada mais lógico que aplicar uma lição aprendida no mar, nas coisas que acontecem em terra firme.

Hoje, quando uma situação arriscada surge em meu caminho, eu sei que ela não vem sozinha, mas que muitos outros riscos estão iminentes. A frase surge em meu pensamento e mantenho-me atento e cuidadoso até que as águas se acalmem. E por mais conturbado que seja a situação, por mais desdobramentos que ela produza, eu sei que em algum momento as águas vão se acalmar porque assim é o ciclo da natureza.

Quando algo exige meu esforço, o aforismo surge para me lembrar sobre o quanto devo me aplicar naquele momento. Assim, não aplico todo meu empenho no primeiro obstáculo porque sei que há mais por vir, tal como várias ondas quebrando sobre mim e me mantendo embaixo da água sucessivas vezes. É preciso que minha resposta aos estímulos seja inteligente e acurada para suportar toda exigência que o empreendimento impõe. Afinal, entre séries de ondas gigantes, surgem aquelas que são amigáveis e com as quais conseguimos lidar mais facilmente.

No entanto, considero que o ponto mais importante é estar aberto às oportunidades que a vida traz. Se você está ciente do que quer e atento aos caminhos que abrem-se diante de si, ondas perfeitas vão surgir à sua frente, esperando para serem surfadas. Porém, se alguém remar mais rápido e roubar a sua chance, mantenha o foco mental e a receptividade. Afinal, atrás de uma onda sempre vem uma onda.

 

Lucas De Nardi