21 de junho

22 06 2017

O inverno está aqui. Ele não escolhe data exata para chegar, apenas esfria os dias e torna as noites mais espessas.
A cidade, agora, é mais silenciosa e nesta época a luz caminha mais lenta pelo chão. As sombras são quase densas.
Há mais roupa, mais comida e mais conversa dentro de casa. A vida do lado de fora é paisagem.
Os pássaros cantam menos. Às vezes o tempo, como o vento, passa cortante.
A alegria se faz em coisas menores: uma meia, uma xícara quente, uns minutos a mais na cama.
É inverno. O mundo se faz diferente, mas segue sendo ele mesmo.

Lucas De Nardi

Anúncios




Atrás de uma onda.

8 05 2017

IMG_9983

 

Durante a minha segunda temporada no Hawaii, criei um aforismo para me ajudar nos momentos em que alguma série gigante me pegava desprevenido ou para amenizar minha frustração com a crowd intensa que é parte inseparável do surf nas ilhas.
A frase que passei a pronunciar mentalmente em várias situações era simples e, de certa forma, redundante: atrás de uma onda, sempre vem uma onda.

Pois é, parece lógica demais, até meio estúpida, mas há uma reflexão a se fazer sobre ela. Uma das coisas que eu passei a perceber quando o mar estava grande e uma onda enorme surgia no horizonte parecendo que ia quebrar na frente de todo mundo, dando-nos, no mínimo, uma bela chacoalhada e algum tempo debaixo d’água, era que todos os surfistas remavam desesperadamente para passar pela onda antes de serem pegos por ela. No entanto, assim que venciam essa etapa, evitando o caldo, a grande maioria relaxava. Acontece que uma onda grande nunca anda sozinha, e não foi só uma vez que presenciei a onda seguinte vindo ainda maior ou com uma formação diferente e pegando uma boa parte do crowd desprevenido.
Então eu pensava, “atrás de uma onda, sempre vem uma onda.” A frase em minha mente me lembrava que eu deveria manter minha atenção e meu esforço até que a série toda passasse, jamais relaxando antes do tempo.

Quando acontecia de eu realmente ser pego debaixo do pico, na zona de impacto em que a onda quebra. Já não adiantava remar para fora, eu já estava no lugar errado. Então grandes volumes de água explodiam no reef e me engoliam. Antes de ser atropelado pela espuma, lá vinha a lembrança de novo “atrás de uma onda, sempre vem uma onda.” Por mais difícil que fosse a situação, por mais tempo que eu ficasse embaixo d’água, eu não poderia gastar toda minha energia e fôlego na primeira onda. Tinha que relaxar e economizar o máximo de oxigênio e resistência porque definitivamente, eu teria que tomar algumas outras ondas na cabeça.

Também haviam momentos em que as coisas estavam dando super certos, eu estava sentado no line up, uma onda aparecia no horizonte e parecia se deslocar perfeitamente na minha direção. Eu remava, me posicionava da melhor forma possível, mas como o crowd lá é muito intenso e é preciso respeitar os locais, acontecia frequentemente de alguém estar mais bem posicionado do que eu, me dar a volta remando ou simplesmente ser local. Então, esse surfista pegava com a onda. Imediatamente um desânimo assaltava minha mente e a frase vinha me lembrar que “atrás de uma onda, sempre vem uma onda.” E eu aproveitava o esforço que já havia colocado em prática, o posicionamento no line up e pegava a onda seguinte. Era quase como se a onda anterior tivesse servido apenas para me colocar no lugar certo para a seguinte. No entanto, era preciso a atitude mental correta para que a tentativa frustrada me fizesse perder a energia aplicada na tentativa inicial.

Posteriormente, passei a levar este lema para meu cotidiano. Afinal, como sabiamente escreveu Vinícius de Moraes, “A vida vem em ondas, como o mar”. Portanto, nada mais lógico que aplicar uma lição aprendida no mar, nas coisas que acontecem em terra firme.

Hoje, quando uma situação arriscada surge em meu caminho, eu sei que ela não vem sozinha, mas que muitos outros riscos estão iminentes. A frase surge em meu pensamento e mantenho-me atento e cuidadoso até que as águas se acalmem. E por mais conturbado que seja a situação, por mais desdobramentos que ela produza, eu sei que em algum momento as águas vão se acalmar porque assim é o ciclo da natureza.

Quando algo exige meu esforço, o aforismo surge para me lembrar sobre o quanto devo me aplicar naquele momento. Assim, não aplico todo meu empenho no primeiro obstáculo porque sei que há mais por vir, tal como várias ondas quebrando sobre mim e me mantendo embaixo da água sucessivas vezes. É preciso que minha resposta aos estímulos seja inteligente e acurada para suportar toda exigência que o empreendimento impõe. Afinal, entre séries de ondas gigantes, surgem aquelas que são amigáveis e com as quais conseguimos lidar mais facilmente.

No entanto, considero que o ponto mais importante é estar aberto às oportunidades que a vida traz. Se você está ciente do que quer e atento aos caminhos que abrem-se diante de si, ondas perfeitas vão surgir à sua frente, esperando para serem surfadas. Porém, se alguém remar mais rápido e roubar a sua chance, mantenha o foco mental e a receptividade. Afinal, atrás de uma onda sempre vem uma onda.

 

Lucas De Nardi





Wislawa Symborska

25 04 2017

O tempo (capítulo dois)
tem direito de se meter
em tudo, coisa boa ou má.
Porém — ele que pulveriza montanhas
remove oceanos e está
presente na órbita das estrelas,
não terá o menor poder
sobre os amantes, tão nus
tão abraçados, com o coração alvoroçado
como um pardal na mão pousado.





Bukowski na madrugada

7 04 2017

“Não há nada a lamentar sobre a morte, assim como não há nada a lamentar sobre o crescimento de uma flor. O que é terrível não é a morte, mas as vidas que as pessoas levam ou não levam até sua morte.”





O localismo e Patanjali

19 02 2017

d1305348-3b4a-480a-8be6-ad29285539f7

 

Todo ano, entre os meses de novembro e fevereiro, hordas de surfistas migram para a costa norte de Oahu, no Hawaii. Nos demais meses, a vida é tranquila nesta região. Há pouca ondas e quase ninguém faz uma surftrip para este destino nesta época.

Obviamente, os surfistas locais não ficam muito felizes quando o circo do surf mundial se muda para o seu quintal. Porém, isso já é uma tradição mais do que estabelecida e dificilmente vai mudar.

Entre os havaianos, pode-se perceber todos os tipos de reações ao crowd, desde aqueles que dão bom dia até os que entram no mar com cara de poucos amigos.

Nestes 4 meses de Hawaii, encontrei várias vezes com um local que faz questão que você perceba que não é bem-vindo. Quando o via dentro da água, minha vontade era de tornar-me invisível. Preferia que ele não notasse minha presença do que ter que receber seu olhar de desaprovação. Ele nunca me dirigia a palavra, mas é como se eu pudesse ouvir seu pensamento dizendo “what are you f*#!ing doing here?”

Aprendi a lidar com sua atitude, procurando julgá-la o menos possível. Sempre que o encontrava, mantinha-me respeitoso e calado. Jamais remei em uma onda sua, mesmo quando estava na preferência. Jamais expressei descontentamento com relação à sua forma de impor o localismo. Mesmo assim, ele estava com a cara fechada em todas as vezes que cruzei com ele. Absolutamente todas, sem exceção. Quer dizer, não exatamente todas.

Na semana passada, um swell grande chegou às ilhas havaianas. Junto dele o pior pesadelo dos surfistas, o kona wind. Um vento que deixa todas as ondas do lado norte das ilhas em péssimas condições.

Por causa disso, os surfistas buscam lugares alternativos para surfar. No maior dia do swell, uma onda que funciona poucas vezes durante a temporada estava com condições clássicas. Vento, direção e tamanho do swell eram ideais.
Cheguei lá enquanto havia pouca gente na água e surfei boas ondas no início da sessão. Porém, no Hawaii nenhuma onda fica sem crowd por muito tempo. Logo em seguida já havia bastante gente na água. Eu estava posicionado mais próximo do inside, na parte do reef em que a onda fazia um double-up e formava o tubo na sessão final da onda. Ali conseguia pegar ondas sem ter que batalhar muito com o resto dos surfistas.

Não fiquei muito surpreso quando vi o tal havaiano chegar no pico. Talvez por ele não estar nas ondas em que surfa com mais frequência, talvez porque estava num dia bom ou talvez por alguma conjunção dos astros, ele me olhou e acenou a cabeça. Fiquei surpreso.

Seu posicionamento era excelente, e em pouco tempo ele pegou várias ondas. Toda vez que ele voltava, remava um pouco mais para dentro de onde eu estava, praticamente ignorando o fato de que eu esperava minha vez.

Num certo momento, ele havia acabado de surfar uma onda que me pareceu muito boa e entrou outra logo atrás. Ela veio direto na sessão do inside e remei forte nela. Fiz o drop desacelerando ao máximo minha prancha para ficar o maior tempo possível dentro do tubo. Foi uma onda linda, com um tubo largo e perfeito. Sai direto no canal, onde ele se encontrava sentado na prancha.
“Você já esteve no Tahiti?”, perguntou. Continuando antes que eu respondesse “Essa onda foi igual a um lugar onde já surfei lá. Um tubo perfeito e a onda acaba.” Sorri e disse que havia estado lá, mas não conhecia a onda mencionada. Ele elogiou meu tubo e disse que estava descansado e esperando um pouco porque não queria parecer “greedy”. Agradeci sorrindo e voltei a remar em direção do line-up.

Quando estava chegando no lugar onde havia me posicionado durante toda session, entrou uma onda com bastante volume, que não quebrou no outside e veio acumulando água e força enquanto se aproximava do inside. Eu estava olhando aquilo empolgadíssimo porque havia esperado por uma onda daquelas desde que entrara no mar. Vi algumas pessoas remando sem muito sucesso e comecei a me posicionar, caso ninguém fosse.
Foi quando eu ouvi meu “amigo” havaiano gritando “Go, brother. Go!”
Quando um local grita para que outro surfista vá numa onda, todo mundo para de remar. É como se fosse uma norma tácita, todos já sabem que a onda é da pessoa que foi estimulada a ir. E por uma sorte do destino, este alguém era eu.

Estava super atrasado, praticamente atrás do lip. Desci tentando gerar o máximo de velocidade possível. Assim que a borda da minha prancha ajustou-se na linha da onda e me projetou para frente, eu já estava dentro do tubo. Passei toda extensão da onda dentro dele. O tubo corria rápido e eu fazia pequenos ajustes para continuar dentro dele sem ser derrubado pelo foamball, a bola de espuma que se forma dentro da onda. Sai junto com o spray da onda e ao som de algumas pessoas que celebraram o tubo comigo. Havia um enorme sorriso no meu rosto e eu comemorava muito.
“Don’t be greedy”, pensei. Apontei o bico da prancha para areia e sai da água.

Estava extasiado e caminhei até meu carro rindo. Havia sido uma onda especial, por vários motivos.

Quando estava saindo do estacionamento, vi o havaiano chegando em seu carro. Abri a janela e agradeci por ele haver me incentivado a ir na onda. Ele então perguntou como tinha sido. “It was the best barrel of my season.” eu disse. E então aconteceu algo muito improvável. Ele sorriu. E não o fez por educação. Não foi apenas esticar os lábios e acenar a cabeça. Ele, sinceramente, abriu um enorme sorriso. Pude ver em sua fisionomia que ele estava realmente feliz pela minha onda. Ele fez um shaka e se despediu. Enquanto dirigia, assimilando toda aquela experiência, foi que lembrei de Patanjali.

Patanjali, cuja biografia é incerta até hoje, foi o autor do Yoga Sutra. Sua obra é o tratado que, pela primeira vez na história, expõe o sistema do yoga. Na sua proposta, o caminho para o autoconhecimento divide-se em oito partes. A primeira parte dessa caminhada em direção a si mesmo é o Yama. Trata-se da maneira como o praticante deve agir para se relacionar melhor com as outras pessoas, animais, vegetais e todo universo à sua volta. Ou seja, como o yogi deve lidar com o mundo objetivo, aquele que está fora dele.

Os Yamas são cinco comportamentos a serem observados. E o primeiro deles é justamente o ahimsa, a não-agressão. No sutra 35 do segundo capítulo, Patanjali explica:

 

“No estabelecimento da não-agressão (ahimsa), a inimizade desaparece das proximidades.”

 

Foi como se uma luz brilhasse dentro da minha mente. Era justamente isso que eu acabara de vivenciar! Claro que demorou algum tempo até que a inimizade desaparecesse na atitude daquele havaiano, mas de fato ocorreu. E foi interessante perceber como o texto é preciso ao mencionar que o efeito ocorre nas proximidades de quem aplica o ahimsa. Afinal, é no universo próximo ao yogi que seu comportamento vai produzir resultado.

Percebi que um ensinamento ancestral, se realmente colocado em prática, ainda gera os mesmos frutos nos dias atuais. Sua aplicação e seus efeitos são, portanto, atemporais.

O yoga provava para mim, mais uma vez, que ele não se restringe ao momento da prática. Vivenciar o yoga apenas no momento de uma aula, não é experimentá-lo em sua plenitude. Yoga é uma forma de viver. Não se trata apenas de fazer uma posição corporal ou um respiratório. Ele deve estar nas escolhas da vida. Ele é prático porque se aplica a todo momento, seja numa situação profissional ou numa viagem de surf.

Ao fim do dia, entendi que Patanjali, há cerca de 3 mil anos, já ensinava sobre como lidar com o localismo.

Lucas De Nardi





Uma tarde

1 02 2017

caetano-veloso-8.jpg

Uma tarde à toa ao som de Caetano vale mais que muito livro de filosofia barata.





O mundo virou casa

30 01 2017

joguei fora a chave
esqueci o caminho de volta
e o mundo virou casa.