Um dia eu morrerei…

26 07 2010

“Viver é a coisa mais rara do mundo.
A maioria das pessoas apenas existe”
Oscar Wilde

Um dia eu morrerei…
Morreram, então, meus desejos
Minhas intimidades guardadas
Palavras que nunca disse
Tudo o que um dia foi intenção

Como um vidro espatifado no chão
Minhas vontades não serão refeitas

Por isso, não guardarei ímpetos na boca
Nem sonhos nos céus de minha imaginação

Serei todo em tudo que tocar
Serei, nas coisas vividas, somente elas

Onde houver Vida
(e ela está por todo lado)
Lá eu viverei…
1Menino.Só





A quietude do céu

19 07 2010

Uma única estrela no céu
A cidade toda iluminada
A Lua muda
O trânsito grita
Os astros distantes
As casas esmagadas
O azul do firmamento
O cinza do cimento

É, acho que vou me mudar para o céu

1Menino.Só

A quietude do céu





…no vazio da cama

19 07 2010

...no vazio da cama

Entro em minha casa
Trago as mãos vazias.
É o silêncio quem me fala
Que vem dele a poesia.

Ter o vento por companhia
Também é sina de quem ama.
Enquanto a saudade me fita
Deitada no vazio da cama.

Amoroso





Poesia do corpo

17 07 2010

Tua boca encontra a minha
Precisa, como a rima.

Teu toque traduz o que não é dito
Sutil, como um verso bem escrito.

Amoroso





O Dinar fugiu…

7 07 2010

Dinar, um amigo!

O Dinar é um amigo de longa data. Estudamos no mesmo colégio nem lembro desde que série. Ele não era meu colega, mas era aquele amigo de recreio, que conhecemos a partir de um outro amigo. Nossa principal afinidade era o amor pelo surf. Depois Dinar sumiu, trocou de colégio, repetiu um ano, mas voltou a aparecer, trazido por outro amigo, agora na adolescência. Dinar era um amigo daquela época em que passávamos os dias andando de skate pela cidade ou escutando música dentro de um quarto enquanto nossos pensamentos viajavam para longe. Os devaneios eram de todos os tipos, desde a ideia de um dos amigos de nossa turma ficar milionário e bancar viagens para os demais até a construção de um barco que serviria de moradia para todos, enquanto viajaríamos para todos os cantos do planeta, pegando altas ondas e curtindo a vida. Tudo sempre passava pelo ideal de morar na praia, surfar todos os dias, trabalhar pouco e tudo que está relacionado ao pensamento de alguém que vive sem ter muitas preocupações ou responsabilidades. Claro que este tempo passou, cada amigo foi para seu lado, viver um rotina distinta, às vezes em partes distintas do mundo. O Dinar também seguiu seu rumo.

Depois de alguns anos sem vê-lo, eu já tinha voltado a morar em Porto Alegre e trabalhava em minha escola. Certo dia ele apareceu e tornou-se nosso aluno. Era um aluno dedicado, freqüentador e muito querido por todos. Mais tarde resolvemos abrir um pequeno Bistrô e ele foi convidado para fazer parte da equipe de trabalho neste novo empreendimento. Aceitou imediatamente, sempre com o entusiasmo que lhe era característico. Trabalhou duro, aprendeu a cozinhar, apaixonou-se pela gastronomia. Anos depois, foi sondado por um investidor para tornar-se seu sócio em um restaurante. Teve ali a oportunidade que muitos sonham, mas poucos conseguem realizar. Era como um bilhete premiado, teria seu próprio restaurante, poderia criar um cardápio, conduzir, tal como um maestro, uma cozinha inteira. E assim foi… por algum tempo…

Na semana passada os sonhos de juventude o assaltaram com firmeza… O Dinar fugiu…
Era uma terça-feira, ele saiu de casa dizendo que passaria no banco e iria para o trabalho e não apareceu mais. Celular desligado, nenhum e-mail, todos os hospitais e delegacias contactados e nada. Mais tarde, no mesmo dia, uma notícia para abalar mais o estado das coisas, ao longo do dia foram feitos saques de sua conta. Saques consideráveis e sem sentido. Sequestro? Era o mais provável!

Foram dois dias de intensa preocupação e agonia. Afinal, imaginar que um amigo querido pode estar morto não é nada agradável. Aguardar por notícias enquanto as horas passam é uma espera longa, tempestuosa e sofrida. A cada instante se imagina um desfecho diferente, mas no fundo sempre há uma ponta de esperança, uma voz quase rouca que nos diz que tudo dará certo. Ao longo desta experiência concluí que quando alguém é seqüestrado, todos os seus familiares e amigos mais próximos também o são. Todos ficam inertes, incapacitados de fazerem algo além de esperar.

Porém, houveram acontecimentos positivos no meio de tudo isso. Na quarta-feira, amigos, colegas, instrutores e Mestres do Método DeRose realizaram uma corrente de mentalizações para que o Dinar aparecesse, para que estivesse bem. Foi bonito ver que em poucas horas pessoas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Rio de Janeiro e Bahia foram avisadas e se engajaram de alguma forma para ajudar o amigo.

Na quinta-feira, pela manhã, foi confirmado o que alguns já suspeitavam, o Dinar estava bem, ele tinha desaparecido por vontade própria. Refugiou-se em alguma praia e apenas mandou avisar que queria ficar sozinho. As reações à esta notícia foram as mais diversas: alguns já sabiam, outros tinham intuído, mas a grande maioria ficou indignada com ele. “O Dinar viajou”, “eu vou dar umas porradas no Dinar quando ele voltar”, “que falta de consideração”, “o Dinar perdeu muitos amigos” foram algumas das sentenças que ouvi.

Logo me pus a pensar em como é estranho este nosso comportamento. Na minha visão, parece que precisamos de uma compensação pelos dias de sofrimento, pela energia despendida. Quer dizer, se ele tivesse sido seqüestrado e agora tivesse sido libertado, então tudo bem, todos estariam aliviados e felizes por terem feito sua parte. Mas será que somos capazes de passar por cima de nosso egoísmo e pensarmos que se alguém que conhecemos como uma pessoa normal faz algo irracional assim é porque esta pessoa não está bem. Ele não foi seqüestrado, não sofreu maus-tratos, ele está inteiro fisicamente, mas e seu estado emocional? O que terá sofrido sua mente até chegar à conclusão de que isso era o melhor a ser feito? E se ele tivesse avisado, “ó, estou saltando fora, vou abandonar a tudo e a todos para morar na praia”, teríamos a devida preocupação com sua saúde emocional ou mental?

Eu não posso julgar se o Dinar sofreu muita pressão, se deu um passo maior que as pernas quando decidiu abrir e gerenciar seu negócio ou se ele não foi capaz de assumir que a coisa estava indo de mal a pior e resolveu abandonar o barco. O fato é que ele tomou uma decisão que afetou sua vida pessoal e profissional. Certamente não foi uma decisão sábia, mas não é isso que está sendo julgado. É um quadro de difícil reversão, e são nestas horas da vida que os verdadeiros amigos devem se preocupar. Independentemente de uma noite mal dormida ou não. Portanto, Dinar, assim que quiser rever os amigos, estamos aí!

Lucas De Nardi