O Deserto Escondido

23 06 2016

Puerto Escondido é o Deserto dos Tártaros do surf.

A cidade de Puerto Escondido abriga a praia de Zicatela, considerada um dos beach breaks mais pesados do mundo. As ondas surfadas lá na remada já chegaram a 40 pés, proporcionando tubos gigantes, daqueles que cabe um caminhão dentro, literalmente.

Deserto dos Tártaros, do italiano Dino Buzzati, é considerado um dos 100 melhores romances da literatura mundial. Retrata a história de um jovem militar que é designado para servir numa solitária fortaleza nas montanhas. Nesse lugar isolado, a tarefa de todos é defender-se dos tártaros, que costumavam chegar pelo deserto que se estende ao longo do vale.

O jovem militar, de cima das muralhas, examina o deserto imaginando e ansiando pelo dia da batalha, o grande dia em que um fato notável justificará sua vida. Seus olhos se cansam de vasculhar o horizonte.” escreve Ugo Giorgetti no prefácio de umas das edições.

Pois quando se chega a Puerto Escondido, a sensação é exatamente a mesma. Você se hospeda na beira da praia, ou bem próximo disso, e todos os dias a tarefa mais importante é vigiar o horizonte na esperança de que a ondulação entre com força suficiente para produzir tubos gigantes que podem mudar sua vida para sempre.

Acontece que em Zicatela, tal como na fortaleza criada por Dino Buzatti, nem sempre os tártaros aparecem. O swell atrasa, o vento terral não sopra, o fundo de areia não está exatamente do deveria, a ondulação entra com uma direção errada, os locais dominam o pico e você não pega nenhuma onda decente.

Os tártaros não vêm. O cotidiano transcorre medíocre, o tempo vai passando, mas o soldado não consegue abandonar o forte e mudar de vida.”

Alguns mudam de praia, dirigem para o sul atrás de ondas mais perfeitas e menores. Outros concluem que Puerto Escondido não é o seu lugar, deixam a praia e nunca mais voltam. Mas para aqueles que, de alguma forma, já se envolveram com as ondas desse lugar, é impossível deixá-lo. Há sempre uma esperança no ar. “Ojalá mañana” ouvia sempre nas minhas últimas viagens para lá.

Toda noite, ao deitar a cabeça no travesseiro, imaginava as linhas oceanicas marchando para praia, o vento terral soprando e tubos enormes sendo surfados. Tal como o jovem militar do romance, que seguia olhando disciplinadamente para o horizonte, sob um céu silencioso.

Ocorre, certas vezes, de os sonhos se concretizarem. Em minha última vez em Zicatela, foi no penúltimo dia de viagem. Todas as variáveis se ajustaram e as aconteciam de maneira tão próxima do sonho que em alguns momentos, sentado no outside, eu sorria sozinho. Quando a realidade vivida é aquela que foi sonhada, não há razão para se pensar. Viver o momento é muito mais urgente.

Os Tártaros não haviam desembarcado no deserto, eles encontraram um Puerto Escondido.

Lucas De Nardi

Anúncios




Minha memória é uma rocha.

3 09 2014

Minha memória é uma rocha.
Só o tempo pode eliminá-la.
Há restos de vida nas arestas.
Há vincos de lembranças.
E vazios de esquecimentos.

Lucas De Nardi





antes de voltar pro mar.

31 08 2014

O tempo nunca foi tão espesso
uma experiência de expandir sentidos.
O dia virava noite que logo amanhecia.
As ondas se arrastavam pelas areias
antes de voltar pro mar.
Incessantemente, sem nunca cansar.

Lucas De Nardi

IMG_2300

 





Senão estando ali

7 01 2014

20140107-003449.jpg

Naqueles dias, não pensava muito
a vida ardia em demasia…
para que eu pudesse pensá-la

Não há espaço para pensamento
onde a vida é imensa

Não pensava também no tempo
Pois o presente engolia tudo
E o passado parecia estrela distante
que se põe no horizonte…

N’algum momento chegaria o futuro
Não havia pressa para conhecê-lo

A vida, assim, se compunha
em experimentar o tempo
não de outra maneira
senão estando ali.

Lucas De Nardi





…a urgência da vida

16 07 2013

O “para sempre” me oprime…
Por isso, amo tanto a urgência da vida.

Lucas De Nardi





Tentei ser poesia

28 05 2013

tomie ohtake

tentei ser poesia
mas meus olhos vazios
não rimavam em parte alguma

mudei de lado
quis ser verso cantado
e minhas mãos
não agarravam canção nenhuma

bateu-me um cansaço eterno
fui ser imagem congelada no tempo
nada feito
não conseguia ouvir o vento
e enjoei de estar parado

pintei a lingua de doce
gritei filosofias baratas
vomitei verdades cruas
mas andar nas pedras
cansou-me as pernas

ajoelhei no chão de terra
cobri a pele de luz
mas o sol ofuscava-me tanto
tal como um prazer machucando
que a sombra perdeu a cor

a flor me emprestou seu perfume
pra eu ser parcela viva de sua história
mas cai na gota da tempestade
senti o gosto das coisas que desabam

amparei-me no tempo
desapareci na curva
morri
pr’os olhos desatentos

Lucas De Nardi





16 02 2013

São 3 horas da madrugada…

Sinto uma sonolência criativa
E perguntou-me:

Perco-a para o sono?
Ou a vivo para a poesia?

Lucas De Nardi