Passarei o feriado com um livro novo já que no último domingo cumpri uma missão que eu mesmo me determinei.
Em minha vida, dois livros passaram por mim e não os li por completo. Ambos foram indicações de meu grande ídolo da literatura, Nestor Alberti. Quando ele me falou sobre o romance de Carson MacCullers, acrescentou na sua voz rouca é um clássico, cara. Ele adora me dizer isso, e fico louco porque sei que jamais terei tempo para ler todos os livros dos quais ele me fala, e os quais já pode se deliciar. De qualquer forma, como bom discípulo, anotei o nome, O Coração é um Caçador Solitário, em um guardanapo qualquer que se perdeu em um bolso esquecido de alguma calça que um dia foi lavada.
Tempos depois, a Naiana presenteou-me com a última edição do livro. Comecei a lê-lo imediatamente, mas achei o ritmo lento, muitas histórias dentro da trama, iniciei outras leituras e desisti do livro indicado pelo Nestor. A Naiana ainda tentava me consolar, mas não são todos os livros que o meu pai indica que eu gosto, mas aquilo não me tranquilizava. Como pode eu não ter gostado de um livro que foi incluído pela Time magazine no seu 100 Best English-language Novels from 1923 to 2005?
Bom, o livro tanto me olhava da estante, com seu marcador de páginas congelado em algum lugar entre o início e a metade do livro que certo dia me senti na obrigação de tentar de novo. E ainda bem que o fiz, foi uma experiência reveladora.
Trata-se do romance de estreia da autora, lançado em 1940, quando ela tinha apenas 23 anos. O sucesso imediato a colocou no topo das listas dos bestsellers daquele ano. É um romance profundo e tocante, uma leitura transformadora pela abordagem realista.
O história se passa em uma cidade do Sul dos Estados Unidos, durante a década de 30. O livro relata passagens da vida de cinco personagens. Sr. Singer, é o principal deles. Trata-se de um mudo cujos demais percebem como alguém sábio e tolerante. Todos eles desabafam sobre seus ideais com ele, que muitas vezes não os entende, mas apenas aceita suas lamentações.
Em um cenário sujo, pobre e desesperançoso, o Sr Singer aparece como um porto seguro na vida do operário marxista, da menina que sonha em viver da música, do médico negro e do passivo dono do bar New York. Niguém escapa à solidão intrínseca que existe dentro de todo ser humano. Todos vivem suas tragédias diárias e encontram alívio no amigo mudo, mas pouco se importam com a vida e os sentimentos reais do Sr. Singer. Em muitas noites, enquanto lia o livro, tive insônia e um dos motivos que atribuo a isso é que as vidas destes personagens continuavam em mim depois que eu fechava o livro e desligava a luz. Cada um de seus anseios parecia meu também e me preocupava se todos seguiriam naquela vida miserável e sofrida… O livro é um relato chocante que vale a pena ser lido.
Agora vou (re)começar As Cores Proibidas, de Yukio Mishima, e espero que esta segunda chance para a leitura também me renda boas emoções.
Lucas De Nardi